Mestra Mayá Pataxó lança o livro “A escola da reconquista”

Este texto é um fragmento do texto original, que foi publicado no site da Teia dos Povos: https://teiadospovos.org/pedagogia-da-reconquista-retomada-do-territorio-da-ancestralidade-do-sonho-do-sentido/ . Foi escrito por Raissa da Silva e Gabriel Kieling (Coletivo Etinerâncias) e Michele Junana (Território Junana/Teia dos Povos em Luta no Rio Grande do Sul)

Na capa do livro a imagem de Lucília Muniz, mãe de Mayá

Mestra Mayá compartilha uma pedagogia inovadora e ao mesmo tempo profundamente ancestral, que foi capaz de produzir saberes, práticas e relações relevantes para o fortalecimento de seu povo, o que colaborou decisivamente para a impressionante retomada de 54 mil hectares do território Pataxó Hã Hã Hãe, no Sul da Bahia.

Não contaram nossa história verdadeira. Mataram nosso povo, nossa  floresta e não contaram a verdade. Fizeram um assassinato para acabar com o nosso povo, para invadir… E  os índios estão aí, mesmo com tanto sofrimento e dificuldade, os índios estão aí dizendo: olhem nós aqui, estamos aqui, estamos guerreando, estamos lutando pelos nossos direitos.

(Trecho de A Escola da Reconquista – Maya Maria )

Mayá, que em suas mãos pegou tantos filhos e filhas, agora pariu um livro. A Escola da Reconquista é, sobretudo, uma semente. Uma semente que traz em si toda a sabedoria de como uma Floresta se reergueu. É uma fonte de ensinamentos sobre como se ativa e se reconquista a real história de um Brasil profundo e atual.

Desde a circularidade do tempo, de seu sentipensar/pensaragir, Mayá retoma o sentido da luta, da identidade, de nossas raízes e culturas, dos mistérios e encantos que tecem a vida. Mayá faz a política encarnada. Sua história se (com)funde com a história das retomadas que hoje formam a Terra Indígena Caramuru Catarina Paraguassu. Onde a magia pelo ensinar transforma árvores em sala de aula e sonho de menino em realidade.

Transformei-me numa professora andarilha. A escola acontecia com a gente andando de casa em casa… Eu andava também de retomada em retomada. Os pais faziam retomadas e levavam suas crianças. Eu tinha que ir onde as crianças estavam. Chegava lá e perguntava às crianças se sabiam porque estavam naquele lugar. Assim, íamos aprendendo e reescrevendo nossa história. Uma vez, fui intimada no Fórum de Pau Brasil. Cheguei lá e me perguntaram se eu estava ensinando os índios a fazerem retomadas. Eu expliquei que meu trabalho era ser professora e tinha que ir lá onde as crianças estavam, junto aos pais, pois era meu dever. 

Para quem souber ler para além das linhas – tiver disposição e ousadia para ir além das páginas do livro e trazer a leitura para sua realidade, como a mestra ensina -, Maria Muniz nos deixa de presente caminhos para a elaboração de um trabalho de base fincado na cosmovisão originária de seu povo. Mayá retoma e cocria uma pedagogia dessa conexão – entre Terra e Céu, Lua e Sol, Saberes tradicionais e Ciência, Sonho e Realidade; pratica a arte da escuta, de não se esquecer aprendiz o tempo todo, do aprender brincando junto. Uma pedagogia da terra que se faz em movimento, no caminhar, no rezo, na luta. Como ela mesma conta:

Nunca disse pra eles [alunos] que eu era professora, e, sim dizia que nós viemos estudar para dias melhores. Minha educação foi feita nesse padrão: trabalhando, caminhando, cantando e conversando. Nas beiras dos rios, embaixo das árvores, em casas de farinhas, em um grande curral que pertencia à nossa comunidade. E, lá, o nosso aprendizado foi riquíssimo. Esse curral abrigou a escola, muitas reuniões, encontros e, hoje, se transformou no Colégio Indígena da Aldeia Caramuru.

Ela nos presenteia com canções (ouçam em sua voz, que faz a terra tremer e o coração vibrar); cada cântico traz a profundidade de conhecimentos que não cabem em um só livro, tecem conexões entre mundos, sustentam céus.

Sua prática rompe com a linearidade colonial do pensar e das hierarquias coloniais de poder, que sempre usaram a “ciência branca” para defender seu projeto de extermínio. Junto ao seu povo, retomou 54 mil hectares de suas terras da mão dos fazendeiros: são 54 mil campos de futebol, em 30 anos de luta (de 1982 a 2012), 396 fazendas retomadas – melhor do que isso, 396 escolas. “E minha pedagogia serviu para essas histórias serem contadas, reencontradas, os jovens conhecerem, os povos se encontrarem e saberem por que estavam ali”, revela Mayá. “Esta escola foi construída ouvindo as histórias que os invasores tentaram apagar”, destaca.

Junto ao seu povo, Mayá retomou a escuta da história, a confiança na luta, a capacidade de apalavrear e contar sobre si. Retomou dos seus, produzindo conhecimento para os seus, sendo ponte entre passado e porvir. A partir do despertar da ancestralidade em seu corpo, Mayá encontrou os fios que permitiram tecer a conexão entre o seu povo, para que pudesse reconquistar o que era seu, e reativar futuros desde aí. Foram 396 fazendas-escolas. 54 mil hectares de histórias e memórias ancestrais de seu povo retomadas, que agora podem falar por si, desde seu corpo-território-memória.

Da espiritualidade, do canto e do sonho como guiança e armas de luta

Imagem do VI Encontro de Pajés, por Deriva Jornalismo

Entre as perspectivas não coloniais, indígenas, que Mayá encarna e apresenta, se destaca a importância e o poder do sonho. Ailton Krenak comentou nos Estudos Selvagens que a civilização não leva o sonho a sério. Que na correria das cidades o sonho, se acontece, é uma curiosidade banal ou, quando muito, apenas representa o inconsciente do indivíduo, não tendo valor social. Entre o povo Guarani, e entre muitos povos, o sonho dá sentido à vida. Diz aonde ir, o que fazer, como e quando ir. Determina deslocamentos, rupturas, retornos e retomadas. Revela os sentidos da grande Caminhada. O sonho é local de encontro. Encontro de diálogo com as forças da vida que fazem o cotidiano se desdobrar nesse plano. Encontro com os encantados: é preciso saber escutar seus conselhos. 

Sonhar é coisa muito séria, que exige muito estudo. Davi Kopenawa também fala sobre isso no seu já clássico livro A queda do céu. Diz que os brancos dormem que nem machados largados no chão e, quando sonham, sonham consigo mesmos. Não conseguem sair de dentro de si. E que muito de ser xamã tem a ver com aprender a sonhar, ter visões que ajudam a entender o que aconteceu, o que acontece e o que vai acontecer, na não linearidade que lhe é característica. A vida não fragmentada. E essa visão que o sonho bem sonhado propicia, esse sair de si para o encontro com as forças da vida, dão a direção de como agir

A mãe de Mayá, Lucília Muniz, sonhou com a retomada. “Nós vamos enfrentar muita guerra, mas vamos ter o direito de alcançar nosso território”, disse à Mayá quando ela era criança. E assim foi. Muita guerra. Mas conquistaram seu território. Com muita coragem, organização coletiva mas, principalmente, com a guiança dos encantados. Como diz Mayá, “os encantados eram quem destinavam as orientações para ela nos repassar”. E assim seguiram e seguem fazendo.

Caminhamos junto com nossos seres espirituais. Em todo momento, nós estamos juntos. Todo trabalho de retomada que nós fizemos, fizemos confiantes nas forças de nosso deus Tupã, confiantes nos nossos encantados, no bater de nossos maracás para chamar nossos encantados.

Batendo os maracás e cantando com toda a força de suas entranhas. Assim Mayá se defendeu de algumas emboscadas, enfrentou dezenas de homens armados, fez os militares correrem. Com a força de seu rezo, com a força de seu canto, com a força da sua ancestralidade, de seu povo e dos seus encantados. 

Teve uma ocasião em que, cientes de que Mayá como professora levava e trazia informações do território (quando as outras lideranças não podiam sair porque o cerco estava fechado, era ela quem fazia as conexões com as organizações apoiadoras), tentaram pegá-la. Um dia, voltando de ônibus da cidade para a retomada, 40 homens armados, a mando de um fazendeiro e políticos locais, bloquearam a estrada em busca dela. No princípio ela achou que havia chegado a hora da sua morte… Mas com o apoio de um senhor que estava no ônibus, que sutilmente a lembrou do poder de Deus e dos encantados, e com a força dessa guiança espiritual, ela cantou uma canção que fala da revoada das araras. E os policiais debandaram que nem araras. Se dispersaram. Sucumbiram frente à força de seu canto. Mayá comenta o causo:

Estava numa guerrilha e tentei me defender com a música. As músicas têm um grande poder. Elas são muito poderosas. Para mim, elas têm um sentido muito grande. São a minha arma mais forte. No momento que me vi nessa guerrilha, quem me defendeu? Deus. Nossos encantados, me libertaram dessa força maligna. Não precisei xingar eles. E o cântico veio. Sim, eu era uma índia guerreira.

Mayá conta outro episódio em que se livrou de muitos homens armados com a força dos encantados, com a força dos cantos. Foi lá por 1997, um período de muitas retomadas, quando retomaram a fazenda Milagrosa, na ocasião da morte de Galdino (que foi assassinado brutalmente em Brasília enquanto defendia os interesses da retomada Pataxó Hã Hã Hãe). Um coronel chegou na retomada com seus soldados e engrossou pra cima do cacique Nailton, irmão de Mayá. A situação estava tensa, prestes a se transformar em conflito direto, quando Mayá convocou a comunidade a começar o ritual. E puxaram o cântico:

Deus no céu, os índios na terra

Deus no céu, os índios na terra

Ô, quem é que pode mais?

É Deus no céu!

Ô, quem é que pode mais?

É Deus no céu!

No começo a tropa ficou observando. Quando menos se esperava, estavam cantando junto. A comunidade puxou outro canto de poder. E a tropa junto. O coronel viu que já tinha perdido a batalha, bateu em retirada, e os seus soldados foram no ônibus cantando “Deus no céu e os índios na terra”. Dava pra ouvir da retomada, o ônibus indo e os soldados cantando lá dentro, até perder de vista. Antes de sair o coronel disse: “Vocês são um povo muito forte”.

Autor: terreiro de griôs

terreiro de griôs é uma revista eletrônica que nasce em 2012, na cidade de Salvador da Bahia, concebida pela musicista e pesquisadora mo maie, contando com a colaboração de inúmeros artistas, pensadoras e pensadores em Abya Yala e Áfrika. trata de temáticas amplas, que vão desde tradições orais, artísticas, cosmogônicas, literatura, música, educação, estória através dos fluxos da diáspora transatlântica.

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